domingo, 2 de novembro de 2025
MEMÓRIA VIVA - Diário do Grande ABC - 11 de maio de 2026, o jornal completará 68 anos
O peso do chumbo e o valor da memória
Quando as páginas de jornal eram moldadas em metal e movidas por coragem e amizade
Por Antonio Devanir Leite
Na era das redações digitais e dos jornais diagramados com um clique, poucos se lembram de que o noticiário já teve peso real — peso de metal, suor e engenho. Nesta crônica, o ex-linotipista Antonio Devanir recorda os primeiros tempos do jornal que viria a se tornar o Diário do Grande ABC e revive o cotidiano das oficinas gráficas em que as notícias nasciam em chumbo quente.
No início, quando Dotto, Polesi e Puga fundaram o News Seller — que mais tarde se transformaria no Diário do Grande ABC —, os desafios eram imensos. Além das economias reunidas para construir o prédio e adquirir o maquinário, foi preciso investir também em grandes quantidades de chumbo, indispensável ao funcionamento das linotipos e das caldeiras de fundição das “telhas”, como eram chamadas as páginas que se encaixavam nos cilindros da máquina de impressão.
Recordo-me de um dos diretores confidenciando que o chumbo custava caro. Tanto que, muitas vezes, nós, linotipistas, precisávamos esperar o funcionário encarregado de desmontar as páginas já calandradas, para que o metal pudesse ser reaproveitado nas caldeiras das máquinas.
Nada se desperdiçava. O chumbo circulava entre nossas mãos e o maquinário como se fosse ouro derretido em linhas.
Esse mesmo diretor contou que o então prefeito de São Bernardo do Campo, o saudoso Lauro Gomes, por diversas vezes presenteou o jornal com grandes quantidades do metal.
“Vamos ajudar os meninos”, dizia ele, com o carinho e o entusiasmo de quem acreditava na força da imprensa local.
Hoje, quem se depara com uma página de jornal editada eletronicamente mal imagina que, na época do chumbão — antes do advento do sistema off-set —, cada página pesava dezenas de quilos.
Aqui mesmo, no ABC, visitei diversas editoras — entre elas a Metodista e a Casa Publicadora Brasileira — e pude ver de perto galpões imensos, repletos de páginas de livros compostas em chumbo, aguardando reimpressão.
Era outro tempo: o tempo do metal quente, do cheiro do óleo gráfico, do barulho compassado das linotipos e das mãos que davam forma às palavras.
Para se ter uma ideia, uma página de jornal composta em chumbo não era uma folha de papel, mas uma forma tipográfica metálica — uma verdadeira matriz de impressão.
Cada linha de linotipo, fundida em liga de chumbo, antimônio e estanho, pesava entre 25 e 30 gramas.
Uma página podia reunir de 1.000 a 1.500 linhas, dependendo do formato e do número de colunas.
1.000 linhas × 25 g = 25 kg
1.500 linhas × 25 g = 37,5 kg
Somavam-se a isso as margens, filetes, títulos e as peças de fixação — regletes, calços e molduras de ferro —, elevando o peso total para algo entre 25 e 40 quilos por página.
Nas grandes oficinas gráficas das décadas de 1950 a 1970, essas formas eram movidas com carrinhos e macacos hidráulicos, pois uma edição completa podia ultrapassar centenas de quilos de chumbo.
Mais do que peso físico, havia ali o peso da notícia, da dedicação e da amizade de quem fazia o jornal acontecer.
E é por isso que, ao recordar esse tempo, me vem à mente que as páginas de chumbo carregavam não apenas letras fundidas, mas também histórias, esperanças e gestos de solidariedade.
Vale, sim, resgatar essa memória.
antoniodevanir@gmail.com
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